segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Cuidado com o "coitadismo", ele é contra a vida

O "coitadismo" realmente é um mal da sociedade atual, está penetrado em tanto lugar que a coisa é pior do que se pensa. Vou falar talvez de um dos textos mais polêmicos que escrevi, senão o mais. Para título de informação, eu sou deficiente visual, perdi boa parte da visão quando tive um câncer há uns 21 anos . Não perdi totalmente a visão, mas enxergo cerca de cinco porcento. Por isso reconheço bem o que vou expor nesse texto. Vejo algo que me preocupa muitas vezes nos deficientes e vou falar exclusivamente dos visuais. Essa história exagerada de preconceito, lutar pelos direitos e sair por aí processando ou tendo vontade de processar todo mundo, é um pouco exagerada e muito vitimizada em alguns casos. Eu entendo perfeitamente o que é preconceito e já passei por isso, fui rejeitado pelo menos em três escolas da minha cidade e todas elas com nomes locais e até nacionais. Não processei nem uma, não acho que isso resultaria em algo além do dinheiro mesmo eu estando dentro dos meus direitos. Educar e adequar uma instituição e pessoas, não é através de processo, é por outro caminho. Quero deixar bem claro que não sou totalmente contrário a processar instituições e afins por preconceito, em alguns casos existe o dano moral e outras coisas, mas acho que isso beira muitas vezes ao exagero e aquela história tão reverberada em nossos tempos do:"eu tenho meus direitos". Em Todas escolas que estudei eu fui o primeiro deficiente visual, estudei em três lugares diferentes na minha vida escolar, mais uma de inglês e a escola atual que faço música. E posso afirmar que o processo do dia a dia e o aprendizado na prática foram muito melhores para os meus educadores, inclusive é algo muito comentado por eles, inicialmente gera aquele medo e insegurança, mas depois eles notam que a coisa não é complicada. É claro que algumas adaptações precisam ser feitas, muita coisa visual acaba tendo e não dá pra levar tudo "na boa". Mas sempre se acha um caminho, não é nada desesperador. Outra coisa que quero destacar que pra mim é mais relevante e preocupante, é o isolamento que acontece por parte das pessoas com deficiência visual. Se prendem muitas vezes em frequentarem alguma instituição para cegos e mesmo quando a mesma já fez tudo que deveria, ainda permanecem lá como um "Porto seguro". A falta de vivência em uma "vida normal", gera alguns problemas bem graves, como: 1 - As pessoas tão pouco conhecem como é a vida de um deficiente visual e por isso se tornam tão ignorantes e fazem perguntas ridículas, do tipo:"sua mãe te dá banho?" 2 - O mundo que a maioria tem a mesma situação que você com pequenas diferenças, não é muito "real". Ele se torna muito acomodado e fugitivo, parece que a vida "lá fora" é terrível e cheia de caminhos obscuros. É claro que existe preconceito, mas a vida não é uma "mamata " pra ninguém, não dá pra culpar só os outros e as instituições e tão pouco ir pra fora e deixar a vida despertar e acontecer. Além disso, é necessário admitir que o número~de deficientes embora seja bem significativo, não é tão grande a ponto de todo mundo ter que conhecer algum e saber lidar com isso, mesmo que as pessoas muitas vezes" forçam a amizade" com perguntas que bastava o bom-senso para que elas não acontecessem. É claro que já passei por situações bem desagradáveis e quando criança já voltei pra casa chorando por causa da minha deficiência e do preconceito, mas a vida segue, e sofrer em muitos casos para não dizer todos, é uma escolha. Sei que existe também o caso dos pais que acabam privando seus filhos de muita coisa e por excesso de preocupação e ignorância, não deixam que eles sejam "livres", colocam limites desnecessários após uma idade mais avançada dentre outras coisas. Isso não é culpa só dos pais é claro, chega uma hora que os filhos devem fazer algo também, afinal, não dá para ficar a vida toda assim, uma hora os pais vão morrer e a independência faz bem para todo mundo que a exerce conscientemente . Isso não é uma generalização e nem um texto para demonstrar que eu sou melhor que a maioria, apenas são fatos expostos de coisas que necessitam de mudanças e muitas delas, precisam partir das próprias pessoas e não só do outro lado. As pessoas que muitas vezes "exercem " o preconceito não são as maiores ou as únicas culpadas , é bom sempre olhar "o outro lado da moeda". Ficar toda hora "gritando" por acessibilidade e não viver em sociedade, não vai resultar em nada. E para encerrar, é muito óbvio que não tenho orgulho de ser assim e se pudesse enxergar normalmente, eu gostaria. Mas não dá, e não há nada a ser feito a não ser viver do jeito que me é possível. E sem "coitadismos" de preferência.

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